<T->
          O Mistrio do 5 Estrelas

          Marcos Rey

<F->
Impresso Braille em 2 partes na diagramao de 28 linhas por 34 caracteres, da 21 edio 
Editora Global, 2005.
<F+>

          Primeira Parte

          Ministrio da Educao 
          Instituto Benjamin Constant
          Av. Pasteur, 350-368 -- Urca
          22290-240 Rio de Janeiro
          RJ -- Brasil
          Tel.: (0xx21) 3478-4400
          Fax: (0xx21) 3478-4444
          E-mail: ~,ibc@ibc.gov.br~,
          ~,http:www.ibc.gov.br~,
          -- 2007 --
<P>
          (C) Palma B. Donato, 2004
          20 Edio, Editora 
          tica, 2003
          21 Edio, Global 
          Editora, 2005
          1 Reimpresso, Global 
          Editora, 2006

          Diretor Editorial:
          Jefferson L. Alves

          Gerente de Produo:
          Flvio Samuel

          ISBN 85-260-0998-2

          Direitos Reservados
          Global Editora e 
          Distribuidora LTDA.
          Rua Pirapitingi, 111 -- 
          Liberdade
          CEP 01508-020 -- 
          So Paulo -- SP
          Tel.: (11) 3277-7999
          Fax: (11) 3277-8141
<F->
e-mail: ~,global@globaleditora.~
  com.br~,
~,www.globaleditora.com.br~,
<F+>
                               I
<R+>
 Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
 (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
<R->

Rey, Marcos, 1925-1999
   O mistrio do cinco estrelas / / Marcos Rey; [Ilustraes Al Abreu]. -- 21 ed. -- So Paulo : Global, 2005.

  ISBN 85-260-0998-2

  1. Literatura infanto-juvenil I. Abreu, Al II. Ttulo.

05-2892            CDD-028`.5

ndices para catlogo siste-
  mtico:

1. Literatura infanto-juvenil 
  028`.5
 2. Literatura juvenil 028`.5
<R->
<P>
Biografia

  *Marcos Rey*, pseudnimo de Edmundo Donato, nasceu em So Paulo, 1925, cidade que sempre foi o cenrio de seus contos e romances. Estreou em 1953 com a novela *Um gato no tringulo*. *Mistrio do cinco estrelas*, *O rapto do garoto de ouro*, *Dinheiro do cu*, entre outros, alm de toda a produo voltada ao pblico adulto, esto sendo reeditados pela Global Editora.
  Voc pode conhecer mais sobre Marcos Rey e sua obra no site:
 ~,www.marcosrey.com.br~,

               ::::::::::::::::::::::::

Sobre o autor

  *Marcos Rey*, pseudnimo de Edmundo Donato, nasceu no ano de 1925, em So Paulo.
  Estreou em 1953 com a novela *Um gato no tringulo*. Nos anos 1980, comeou a escrever tambm 
<P>
                             III
para o pblico juvenil.
  Falecido em 1999, suas cinzas, transportadas num helicptero, foram espalhadas sobre So Paulo, cidade que consagrou como cenrio de seus contos e romances.

               ::::::::::::::::::::::::

Livros de Marcos Rey pela 
  Global Editora

Infanto-Juvenil

 *Bem-vindos ao Rio*
 *Corao roubado*
 *Dinheiro do cu*
 *Doze horas de terror*
 *Enigma na televiso*
 *O diabo no porta-malas*
 *O mistrio do cinco estrelas*
 *O rapto do garoto de ouro*
 *Na rota do perigo*
 *Sozinha no mundo*
<P>
Adultos

 *O enterro da cafetina*
 *Soy loco por ti, Amrica*!
 *O pndulo da noite*
 *O co da meia-noite*
 *Mano Juan*
 *Melhores Contos Marcos Rey*
 *Melhores Crnicas Marcos Rey*

O Mistrio do 5 Estrelas

  Um homem  assassinado no 222 do Emperor Park Hotel. O nico que viu o corpo foi Leo, mensageiro deste cinco estrelas. Mas ningum acredita em suas histrias. Ele  apenas um garoto e seus inimigos so poderosos.
  Conseguir, afinal, desvendar o mistrio do cinco estrelas? Abra este livro e embarque numa aventura cheia de suspense e surpresas, onde Leo se ver enredado numa trama de tirar o flego da primeira  ltima pgina.

               ::::::::::::::::::::::::
                               V
Prezado(a) Leitor(a),

  Este livro  de uso coletivo. Como, alm de voc, muitos leitores tero acesso a ele, certos cuidados ao utiliz-lo so muito importantes:
<R+>
 manuseie-o com as mos limpas;
 evite comer ou beber enquanto estiver lendo;
 procure mant-lo bem conservado, sem rabiscos, dobras e sem recortes; e
 ao concluir a leitura, devolva-o para a biblioteca. 

 Contamos com sua colaborao.
 Boa leitura.
<R->

               ::::::::::::::::::::::::

<7>
<p>
<Tmist. 5 estrelas>
<T+1>
 O 222

  Leo apertou a campainha do 222, recebera um chamado. Logo se abria um palmo de porta mostrando a cara e o sorriso largo do Baro. Embrulhado num robe azulo, ele parecia ainda mais gordo, mole e displicente.
  -- Me traga os jornais de sempre -- pediu o hspede passando ao *bellboy* uma nota amassada.
  -- Esse dinheiro no vai dar, senhor.
  -- Tem razo. Um momento.
  Quando abriu o guarda-roupa para apanhar a carteira, Leo viu pelo espelho interno do mvel que o Baro tinha companhia: um homem pequeno, com pinta de ndio vestindo roupas civilizadas, lavava concentradamente as mos na pia do banheiro. Devia ser uma daquelas muitas pessoas que o Baro ajudava, pensou o rapaz.
  O volumoso hspede do 222 demorava para encontrar a carteira nos bolsos de seus palets, enquanto o *bellboy* aspirava vrios cheiros do apartamento: o de charutos j fumados e amanhecidos, um mais agradvel de lavanda e ainda outro de ma, sempre vendo pelo espelho o tal homenzinho a lavar as mos e a enxug-las em toalhas de papel que ia jogando numa cesta. Depois, com o sbito receio de ser visto pelo espelho do guarda-roupa, fechou a porta do banheiro com uma cotovelada.
  Afinal o Baro reapareceu com mais dinheiro e um novo sorriso.
  -- O troco  seu, meu filho.
  Leo disparou pelos corredores acarpetados do Emperor Park Hotel, esperou e apanhou o elevador e passou pela portaria. Novato ainda no emprego, provava com a velocidade das pernas seu interesse pelo trabalho. A entrada do edifcio, em seu belo uniforme branco com debruns dourados, viu o Guima (Guimares), o porteiro, antigo amigo de sua famlia, a quem devia o salrio, aquelas gorjetas todas e a nova profisso.
  Ao entrar pela primeira vez com o Guima, h dois meses, no imenso e rico saguo do Park, como o chamavam simplesmente os funcionrios, Leo ficou deslumbrado. No seu mundo da Bela Vista, 
<8>
o bairro do Bexiga, onde nascera e morava, jamais pisara num ambiente to bonito, moderno e fofo. Isso que  um cinco estrelas, explicou o porteiro com orgulho de proprietrio. Mas o que  um cinco estrelas? Guima olhou-o como se sua ignorncia lhe fizesse pena e disse que a qualidade dos hotis  medida pela quantidade de estrelas que ostenta. Cinco  o mximo, s para estabelecimentos de nvel internacional.
  Era uma sexta-feira; na segunda, j fardado e registrado, Leo comeava a trabalhar no Emperor Park Hotel, como *bellboy*, mensageiro, das 8 s 18 horas, quando voltava para casa, jantava s pressas e corria para a escola noturna. O horrio era puxado e o servio de cansar as pernas, mas as gratificaes compensavam. Recebia gorjetas inclusive em dinheiro estrangeiro. Logo conheceu a cor do dlar, da libra, do peso, do franco, da peseta, que trocava por cruzeiros l mesmo na casa de cmbio do Park.
  Leo precisou de um ms para percorrer os vinte e tantos andares do 
hotel, sem contar os sub-
 terrneos destinados s garagens, lavanderia, depsito de gneros alimentcios, adega, almoxarifados, um labirinto frio e deserto em muitas horas do dia.
  No era, porm, no proletrio subsolo que o rapaz da Bela Vista encontrava satisfaes e interesses. Gostava de vagar pelo saguo, sempre cheio de hspedes que chegavam ou partiam, numa confuso de malas, rtulos e idiomas, de espiar a piscina, no quarto andar, com suas guas muito cloradas, dum verde para ricos, o restaurante, com seus odores caprichados, a luxuosa boate, o imponente salo de convenes, o *tropical garden*, pequena floresta onde serviam gelados e sanduches, a sauna, que vendia calor e fumaa, a quadra de *shopping*, com suas lojas sofisticadas, e no alto, l em cima, o belo bar-terrao, coisa de cinema, com pista de dana, solrio e um mirante envidraado para se ver So Paulo inteira,  luz do sol, eltrica ou de vela em jantares ou ocasies especiais.
  A maioria dos hspedes do Park tambm parecia ter cinco estrelas estampadas na testa: gente importante, preocupada com 
<9>
telefonemas internacionais, polticos, desportistas e artistas famosos que recebiam jornalistas ou deles fugiam, evitando fotos e entrevistas. Logo na primeira quinzena de Park, Leo esteve a dois metros de distncia de Vera Stuart, atriz do cinema norte-americano, carregou as malas dum automobilista francs de Frmula 1, e levou uma garrafa de mineral ao apartamento de um dos reis do petrleo do Oriente Mdio, vestido em trajes tpicos.
  Havia, ainda, hspedes que moravam no hotel: dona Balbina, viva rica e solitria, Mister O'Hara, que embora muito idoso e doente dirigia uma grande empresa quase sem sair do apartamento, o ano Jujuba, dolo infantil da televiso, e o Baro. Certamente Baro era apenas o apelido do homem gordo que mandou Leo comprar jornais, conhecido benemrito, protetor de inmeras instituies assistenciais.
  Leo voltou com os jornais e tocou a campainha do 222. Desta vez o hspede no abriu de imediato a porta. Antes que o fizesse, o *bellboy* ouviu rudos.
  -- Quem ? -- perguntou o Baro, o que nunca fazia.
  -- Sou eu, o *bellboy*. Trouxe os jornais.
  A porta abriu pouco e lentamente, o suficiente apenas para mostrar o rosto do hspede. O Baro muito plido, como um doente, teimava em sorrir, mas no devia estar bem porque suas mos, trmulas, deixaram cair os jornais. Leo abaixou-se para apanh-los quando viu, sob a cama, dois ps calados, apontando para a porta. Pegou os jornais e, 
ao levantar-
 -se, notou que havia uma mancha vermelha, provavelmente de sangue, no robe do gordo do 222.
  -- Obrigado -- disse o Baro, segurando confusamente os jornais e apressando-se em fechar a porta.
  Mesmo diante da porta fechada, Leo deteve-se ainda um momento para relembrar e fixar na memria a cena que acabara de ver. Da por diante comeariam seus problemas.

<10>
Guima, sabe o que eu vi?

  Leo desceu para o saguo desejando que ningum o chamasse. 
Precisava contar ao Guima o que vira no 222. O porteiro, na rua, 
parava um txi para um casal de hspedes estrangeiros. Ele era 
bastante considerado pela gerncia porque falava um pouco diversos 
idiomas, at japons.
  Guima, assim que o viu, aproximou-se:
  -- Diga a dona Iolanda que domingo passo l pra filar macarronada.
  Leo estava agora mais assustado do que no momento em que vira os 
ps debaixo da cama.
  -- Guima, sabe o que eu vi?
  O porteiro sentiu que o rapaz estava sob forte tenso e ficou muito 
preocupado. Para um 
 *bellboy* no era interessante ver certas coisas. 
Alis, o perfeito mensageiro no tem olhos nem ouvidos: apenas pernas 
e cortesia.
  -- Alguma mulher sem roupa?
  -- No, acho que vi um cadver.
  -- Em que programa de televiso?
  -- No  brincadeira, Guima. Vi um cadver debaixo duma cama. Sabe 
onde? No apartamento 222, o do Baro.
  -- Mas como viu esse cadver?
  Leo foi contando tudo a partir do chamado para comprar jornais 
quando pelo espelho do guarda-roupa embutido vira o tal homenzinho 
com cara de ndio que lavava as mos. Embora sorrindo aos hspedes 
que entravam e saam, Guima prestava toda a ateno e ia se 
contagiando pela mesma ansiedade. Mas precisava fazer perguntas para 
eliminar a hiptese de iluso.
  -- Acalme-se, Leo, respire fundo e depois me diga se viu mesmo uma 
pessoa debaixo da cama.
  -- Vi, juro.
  -- A mesma pessoa que j tinha visto?
  -- No sei, s vi dois ps, desta vez.
<11>
  Guima abriu os braos sem saber o que dizer e muito menos o que 
fazer.
  -- Se h um cadver no 222, logo saberemos.
  Chegou a vez de Leo fazer perguntas:
  -- Voc viu entrar um homem como descrevi? Baixinho, cara de ndio? 
Usava um terno azul metlico.
  A resposta veio logo:
  -- Se vi, no notei.
  -- Voc est sozinho aqui na porta?
  -- Desde o meio-dia. O outro porteiro foi ao mdico.
  Leo continuava atnito, querendo orientao.
  -- O que fao, Guima?
  A resposta foi seca mas pensada:
  -- Nada.
  -- Isso  direito?
  -- O importante  seu emprego, Leo. O que ganha aqui no ganhar 
noutro lugar. Fique bem quieto e aguarde. Se h um cadver, ele vai 
aparecer.
  O *bellboy* voltou ao saguo e aproximou-se dos elevadores. 
Precisava conversar com os dois ascensoristas em servio. A ambos 
perguntou se haviam levado um homem baixinho, com cara de ndio, para 
o segundo andar. Um garantiu que no e o outro no lembrava. Leo 
subiu ento para o andar do gordo e foi procurar a camareira, uma 
mulata chamada Jandira.
  -- Voc viu algum entrar no 222?
  -- No vi.
  -- J arrumou o apartamento?
  -- No, ele ps o No perturbe na porta. Deve estar dormindo.
  O rapaz dirigiu-se  sala onde os mensageiros se reuniam  espera 
dos chamados. Ningum vira o homem de cara de ndio entrar nos 
elevadores ou no 222. Com o saguo to movimentado, dificilmente uma 
pessoa insignificante como aquela seria notada. E, talvez tivesse 
subido pelas escadas, j que o Baro morava logo no segundo andar. 
Lembrou-se do homem empurrando a porta do banheiro com uma cotovelada 
para no ser visto. Que motivo teria para temer sua imagem no 
espelho?
<12>
  Aquela tarde Leo trabalhou como sempre. Subia e descia os andares 
atendendo a constantes chamados. Mas a movimentao no impedia que 
pensasse no que vira e, sempre que cruzava com Percival, o gerente, 
sentia vontade de contar-lhe tudo.
  Quando seu horrio se esgotava, viu o Guima no saguo.
  -- Guima, vamos falar com o gerente?
  -- Ainda acho que no devemos nos meter.
  -- Estive pensando, Guima. Se h um cadver no 222 tenho que 
comunicar  gerncia. O Manual dos Mensageiros diz que devemos 
relatar aos superiores toda e qualquer irregularidade.
  -- Bem, j passaram algumas horas -- ponderou Guima. -- Queria que 
tivesse tempo para pensar. J teve esse tempo. Vamos ento.
  -- Se no quiser, no precisa. Vou s.
  Guima olhou na direo dos elevadores:
  -- Veja quem vem vindo.
  Leo olhou: era o Baro, com a chave, que se dirigia  portaria, 
muito calmo, e com aquele sorriso to gordo como seu rosto.
  -- Por favor -- pediu no balco. -- Mandem a camareira arrumar meu 
quarto.
  Assim que o Baro saiu do hotel, Leo e Guima subiram. Encontraram 
Jandira no corredor.
  -- Arrume o 222 -- disse-lhe o rapaz.
  A moa abriu a porta do apartamento. Leo espiou debaixo da cama. 
Guima procurou vestgios de sangue no cho do banheiro e nas toalhas. 
Intil.
  -- Vamos ver no guarda-roupa.
  -- Bom lugar para se esconder um cadver -- disse Guima.
  A porta do guarda-roupa estava apenas encostada.
  -- Ser que Jandira no vai dizer que estivemos aqui?
  -- Ela pensa que estamos procurando alguma coisa para ele. Vamos 
embora.
  No corredor, Leo perguntou ao Guima:
  -- Acha que menti?
  -- Mentiroso, voc? O filho do Rafa?
<13>
  -- Ento que foi uma iluso. Isso?
  -- No estou pensando nada, meu chapa. Mas aquele homem que ns 
vimos l embaixo, com aquela calma, no estava com jeito de quem 
acabou de matar uma pessoa, estava?
  Leo curvou a cabea, concordando:
  -- No estava.

 Um velrio sem cadver

  Leo foi a p do Park  Bela Vista. No tinha pressa, eram as frias 
de fim de ano e precisava de tempo e espao para pensar. Teria sido 
vtima duma iluso? H pessoas assim, basta olhar para o cu e vem 
discos-voadores. Gente que vive mais de fantasia que de realidade, 
doentes da cuca que imaginam coisas que no viram nem aconteceram. 
Sofreria dessa enfermidade? Ou andava intoxicado pelo excesso de 
leituras policiais e de filmes seriados da televiso? Ou, ainda, quem 
sabe, o ambiente cinematogrfico do Emperor Park Hotel, com seu 
variadssimo elenco de personagens, to diferente do seu mundo, tinha 
lhe afetado a mente?
  -- Voc no viu nada, Leo -- disse a si mesmo j na rua onde 
morava. -- Tudo imaginao. Amanh, no Park, vou dar at risada. E 
com apetite!
  A famlia de Leo vivia numa casa muito velha como eram quase todas 
do bairro. Seus pais, Rafael e Iolanda, haviam nascido l, no Bexiga, 
um dos ncleos italianos da cidade; conheceram-se na infncia, mas s 
se casaram depois de um dos noivados mais longos do quarteiro. 
Rafael, que todos chamavam de Rafa, era ento marceneiro e Iolanda 
trabalhava numa cantina de parentes. Casaram e alugaram aquela casa, 
j desbotada por dentro e por fora, precisando duma urgente reforma, 
sempre adiada por falta de dinheiro. O pai de Rafa, seu Pascoal, 
vivo, comilo e contador de histrias, foi morar com o casal, como 
inquilino, mas s pagou o primeiro ms. Depois, perdendo o emprego 
numa vidraria, no trabalhou mais e no se 
<14>
falou mais em pagamento. Ao contrrio da maioria das famlias 
italianas, Rafa e Iolanda tiveram apenas dois filhos, Leonardo, agora 
com dezesseis anos, e Diogo, com doze. Mas a casa, principalmente nos 
fins de semana, estava sempre lotada de parentes e amigos, quando 
dona Iolanda fazia na cozinha tudo que aprendera na cantina.
  -- O Guima disse que vem aqui domingo -- disse Leo  sua me.
  -- Ento vou preparar algum prato especial. Ser que ele gosta de 
aspargo? Mas se no gosta, ficar gostando, do jeito que eu fao. 
Precisamos agradar bastante esse homem. Arranjou um emprego para 
voc.
  --  verdade -- concordou Leo. -- O ordenado  pequeno mas as 
gorjetas so boas. O Guima comprou um Fusca e um apartamento com elas.
  -- Por isso cuidado, filho. No v perder esse emprego. Outro assim 
voc no arranja mais.
  -- No vou perder, me. L todos gostam de mim.
  Em seguida Leo foi para a oficina, como chamavam o quarto dos 
fundos, onde Rafa fazia esculturas em madeira. Cansado de trabalhar 
como marceneiro, descobrira que era artista e passou a tornear lindas 
peas que vendia nas cantinas do Bexiga e principalmente na feira 
*hippie* da Praa da Repblica. Pascoal, o nono, ajudava-o a produzir 
as peas e Leo a vend-las. Quem no gostava muito da arte era dona 
Iolanda que preferia o operrio ao escultor porque o primeiro ganhava 
mais que o segundo. Mas Rafa, artista, detestava submeter-se a 
horrios e obrigaes, e acreditava que seu talento um dia seria 
reconhecido.
  -- Eh, filhote, como vai o hotel?
  -- Tudo bem, pai. Guima vem almoar aqui domingo.
  -- Bom mesmo. Quem sabe ele consiga vender minhas esttuas aos 
hspedes do Park. Bom papo  o que no lhe falta.
  -- Ento vamos jantar. A me fez polpetas.
  Sempre se comeu muito bem na casa dos Fantini, mesmo quando o 
dinheiro desaparecia. Dona Iolanda no precisava ter a despensa e a 
geladeira cheias para preparar os pratos mais saborosos. Rafa dizia 
que ela fazia mgica na cozinha, e era verdade.
<16>
  Leo jantava com os olhos no prato, doido para dar um passeio no 
Morro dos Ingleses. Numa cabeceira da mesa estava seu pai e noutra o 
nono, com seus quase oitenta anos, uma das figuras mais conhecidas do 
Bexiga, onde sempre morara e exercera as mais variadas profisses: 
lingiceiro, pedreiro, vidraceiro, pintor de paredes, consertador de 
tudo que quebrasse e cabo eleitoral.
  Ao lado de Leo,  espera de elogios pelas polpetas, comia dona 
Iolanda, mulher bonitona e forte, e, diante dele, Diogo, o caula, um 
dos moleques mais barulhentos e rebeldes do Bexiga. Mas perto dos 
pais dava uma de santo, convencendo-os de que era inocente de todas 
as acusaes que a vizinhana lhe fazia.
  Leo terminou o jantar e nem esperou o caf.
  -- Onde vai? -- perguntou a me.
  -- Dar umas bandas por a.
<P>
  -- Vai atrs daquela menina outra vez?
  A famlia toda sabia da gamao de Leo por ngela. Mas Rafa e 
Iolanda, Iolanda mais que Rafa, condenavam esse quase-namoro porque 
os moradores do Morro dos Ingleses pertenciam a outra classe social, 
eram mais gr-finos, e quando h essa diferena entre namorados, 
nunca d certo.
  -- Vou espiar os teatros -- disse Leo. -- s vezes consigo entrar 
sem pagar, quando h alguma estria.
  O alegre bairro do Bexiga, alm de ser o das antigas casas 
paulistanas, do po italiano e das cantinas,  tambm o dos teatros, 
que s vezes Leo freqentava se os espetculos no eram proibidos 
para menores de dezoito anos. Mas, aquela noite, sua inteno era a 
que sua me adivinhara: dar um passeio pelo Morro dos Ingleses, l 
perto, na esperana de ver ngela.
  Leo e ngela no eram namorados e jamais haviam marcado encontro. 
Estes eram casuais ou disfaradamente provocados pelo rapaz. Se ela 
saa  porta do edifcio, ou ia  confeitaria, Leo materializava-se 
diante dela, com cara de quem no queria nada, e puxava conversa. 
ngela nem sempre lhe dava ateno, apressada ou indiferente, mas 
outras vezes se portava como uma quase-namorada, 
<17>
e ficavam  esquina ou davam voltas no quarteiro conversando sobre 
mil assuntos. Juntos, em ambiente fechado, s haviam estado uma vez, 
na grande discoteca do bairro, esse sim um encontro casual, quando 
Leo viveu uma de suas noites mais maravilhosas. Embora ela estivesse 
com um grupo, foi com ele que ngela preferiu danar horas inteiras. 
Leo imaginou que dessa noite em diante ficariam namorados, e as 
coisas melhorariam, porm se enganou. A garota, logo em seguida, 
voltou a v-lo apenas como um conhecido, entre os muitos que possua, 
e a esnob-lo discretamente. Ele ento decidiu no procur-la mais. 
Essa deciso no entanto durou apenas uma semana, abandonada ao 
concluir que ngela era de fato, e sem dvida, feliz ou infelizmente, 
seu primeiro amor.
  Aquela noite Leo precisava ver e conversar com ngela mais do que 
nunca. Tinha a impresso de que s um papo com ela poderia fazer com 
que esquecesse o cadver visto ou imaginado no apartamento do Baro. 
Mas ela no estava na porta. Deu uma longa volta no quarteiro, parou 
diante do Teatro Galpo, tomou um refrigerante num bar, sem ter 
vontade, e voltou ao endereo de ngela. Outra vez no a encontrou e 
j retornava para casa quando uma voz inconfundvel o chamou.
  -- Leo! Leo!
  Ele parou e viu ngela, linda como um bolo de noiva, vir vindo, 
ligeira, em sua direo.
<p>
  -- Como vai, ngela? Eu ia passando.
  -- Da minha janela vi voc passar duas vezes.
  -- Estou dando umas voltas.  isso a.
  Leo tentava mostrar-se indiferente ou natural, mas nem sempre 
conseguia. Principalmente quando ngela estava muito bonita como 
naquela noite. Usava um vestido branco e inventara um penteado que a 
tornava mais alta e atraente. Sabia que tinha quinze anos 
incompletos, porm parecia ter uns dezoito. E seu maior receio era 
ter que disput-la com rapazes mais velhos, em idade que j se fala 
em noivado e casamento.
  -- Vamos dar um passeio -- sugeriu Leo.
<18>
  -- Lamento mas no posso. Meus pais saram e estou s com a 
empregada.
  -- No faz mal. A gente conversa aqui mesmo.
  -- S quis lhe dar um al.
  -- Voc no vai entrar agora, vai?
  -- Quero assistir televiso antes de dormir.
  -- Que programa?
  -- No sei, qualquer um.
  -- Mas a gente no tem se visto.
  -- Outro dia ns conversamos. S quis saber como estava passando.
  ngela aproximava-se e pelo motivo mais banal recuava. Para ela 
tudo ficava para outro dia e vez. Leo no entendia muito de moas, 
porm imaginava que costumavam agir assim quando no tinham nenhum 
interesse ou quando o tinham demais. Mas no queria voltar cedo para 
casa nem sofrer o vazio que ngela deixava ao ir embora. Para tentar 
ret-la, disse:
  -- Houve um crime no hotel.
  -- Houve? J saiu nos jornais?
  -- Ainda no. E talvez nem saia. Eu entrei num apartamento e 
<P>
vi o corpo dum homem debaixo da cama.
  -- E o que voc fez? -- perguntou ngela com reduzido interesse.
  -- Bem, eu falei com o Guima, o porteiro, e mais tarde ns dois 
fomos ao apartamento, quando a camareira fazia a arrumao, mas j 
no encontramos nada.
  -- Voc tem certeza de que era um homem?
  -- Tinha, at que voltei l e no o vi mais.
  -- E o que o Guima diz?
  -- Ele acha que foi iluso porque quem mora nesse apartamento, um 
tal de Baro,  uma boa pessoa e no cometeria um crime.
  ngela olhou Leo com muita seriedade e disse uma coisa que 
permaneceria a noite toda em sua cabea.
  -- Voc no  desses que vem o que no existe. Se viu um homem 
debaixo da cama, havia um homem debaixo da cama.
<19>
  -- Como sabe que no sou desses? Posso ser um tanto maluco e voc 
no sabe.
  -- Voc no  maluco -- garantiu ngela.
  -- Ento, o que acha que devo fazer?
  -- Isso no sei. Mas penso que deve ficar quieto em seu canto. Meu 
pai  advogado e sempre diz que um pobre dificilmente consegue pr um 
rico na cadeia.
  Leo reconheceu que era conselho de gente madura, o mesmo que seus 
pais dariam, e aceitou-o como fim de conversa. Mas a confidncia, 
apesar de sua dramaticidade, no prolongou mais o encontro. ngela 
queria mesmo ver televiso. Como novidade, deu-lhe um beijo rpido no 
rosto e correu para o edifcio sem olhar para trs.

 Um mergulho nos pores do hotel

  Na manh seguinte, enquanto tomava caf na cozinha, e ouvia o nono 
cantar no banheiro *Sappore di Mare*, Leo virava as pginas dum 
matutino na esperana de encontrar notcia sobre algum crime 
misterioso ou desaparecimento de algum com cara de ndio. No 
encontrando nada assim, com os olhos no relgio, deu um beijo 
estalado em dona Iolanda e disparou para a rua.
  Menos duma hora depois, fardado, Leo j era o veloz e solcito 
*bellboy* do Emperor Park Hotel, subindo e descendo pelos elevadores, 
carregando malas, sorrindo para os hspedes e recebendo gorjetas. S 
muito tempo depois teve oportunidade de aproximar-se do Guima, na 
porta.
  -- Guima, me diga uma coisa: o Baro  amigo de algum hspede aqui 
no hotel?
  -- Ainda no esqueceu aquela histria?
  -- Vamos, diga.
  -- Ele  muito chegado  Balbina, a viva.
  Leo desanimou.
<20>
  -- Mas ela mora no dcimo segundo.
  -- O que tem isso?
  -- O Baro no poderia levar um cadver do segundo para o dcimo 
segundo.
  -- Mais uma prova de que voc teve uma viso ontem  tarde.
  Leo voltou para o saguo e dirigiu-se aos elevadores. Mas no 
subiu; desceu. Precisava percorrer o subsolo e meter o nariz em todos 
os cantos possveis. quela hora da manh o movimento ainda no era 
intenso. Como se executasse ordens, e tentando agir com naturalidade, 
embora sempre atento a tudo, entrou na adega e no imenso depsito de 
gneros alimentcios. O almoxarifado ainda estava com as portas 
cerradas. Deu uma olhada na oficina de consertos de aparelhos de 
rdio e televiso. Entrou em diversas salas e saletas com apenas 
alguns mveis, sem utilidade definida. Subitamente pareceu-lhe 
absurdo vagar por aqueles corredores frios como se fosse um inspetor 
sanitrio. Se o corpo tivesse sido levado para o poro, por quem quer 
que fosse, no o deixariam l at o dia seguinte. A noite seria quase 
com certeza o melhor perodo para se livrarem dele.
  Como ltima etapa da procura, Leo foi at a lavanderia, ainda 
deserta, porque l o trabalho ainda no comeara. Passando entre 
montanhas de fronhas e lenis, ocorreu-lhe que no poderia haver no 
hotel lugar melhor para se esconder um corpo durante algumas horas. 
Lembrou-se que seu horrio de servio era das 10 s 17. E fora pouco 
antes das 5 que levara os jornais ao Baro. Quem transportou o corpo 
no teve problemas com os funcionrios da lavanderia. Mas um enigma 
persistia: como fora feito o transporte? Descer com um cadver pelas 
escadas ou elevadores era impossvel. Principalmente num fim de tarde 
quando 
<P>
havia desfile interminvel de hspedes e mensageiros.
  J encaminhava-se aos elevadores, voltando ao trabalho, quando viu 
um carrinho metlico usado para carga de roupa suja. E aquele no era 
o nico, o hotel possua dezenas. As camareiras estavam sempre os 
empurrando pelos corredores e descendo com eles pelos elevadores. No 
precisou andar muito para ver outros estacionados 
<21>
junto s paredes. Leo decidiu examinar todos que sob as roupas 
pudessem ocultar um cadver. No salo principal da lavanderia, a um 
simples exame, nada encontrou. No corredor que ligava a lavanderia ao 
almoxarifado viu outros carrinhos, todos descarregados. Se o cadver 
est num deles, pensou Leo, quem o trouxe no o deixaria to  vista. 
Lembrou-se das inmeras saletas sem uso freqente. E todas tinham um 
amplo visor. Bastaria espiar do corredor para ver o que havia dentro 
delas. Foi o que fez, com a impresso de que ficava quente, como nas 
brincadeiras da infncia. Justamente na ltima saleta do corredor, 
entre um mundo de caixotes, viu um carrinho cheio de fronhas e 
lenis. Quis entrar, estava fechada. Verificou outras saletas, todas 
abertas. Por que passaram a chave naquela? O cadver est aqui, 
concluiu Leo, por algum motivo que ignoro no o levaram para fora do 
hotel ontem  noite. Hesitava entre chamar o Guima ou correr  
gerncia. E se houvesse no carrinho apenas roupa? Como saber? S 
havia um jeito: abrir a porta na marra. Mesmo assim a ao no foi 
imediata  deciso. Respirou forte, levando sua convico aos 
pulmes, antes da primeira ombrada. A porta no cedeu. Apenas uma 
rangida. No terceiro impacto, o ombro comeou a doer, porm no 
desistiu. Agora era verdadeira luta contra a porta com sons surdos e 
ecos prolongados. s vezes trocava de ombro mas a vontade de entrar 
na saleta continuava a mesma.
  Afinal, Leo ouviu um forte estalo e a porta cedeu com o chiado dum 
esparadrapo que se rasgasse em tiras. Com a sensao desagradvel de 
quem causa prejuzo involuntrio, pisou a saleta, onde alm do 
carrinho s havia um par de cadeiras velhas. Sentiu um arrepio de 
piscina no inverno. Desejou no encontrar nada sob os lenis. Assim 
toda tenso terminaria. Tentou remexer as roupas, mas suas mos no 
obedeceram ao comando. Teve de vencer a paralisia de pesadelo para 
erguer os lenis sobre o carrinho. Logo encontrou alguma resistncia 
e viu uma mancha de sangue.
  Como um boneco de cera, as pernas dobradas, Leo viu o cadver, o 
mesmo homem de cara de ndio do apartamento do Baro. Devido ao seu 
pequeno porte coubera no carrinho e coberto 
<22>
por lenis pudera ser transportado sem chamar ateno. Seu palet de 
tecido aluminizado tambm estava manchado de sangue. Observou sua 
boca entreaberta, a morte o surpreendendo no meio de um grito. Os 
olhos muito abertos, aps a exibio da ltima cena de sua vida.
  Vou sair daqui e chamar o gerente, decidiu Leo, aterrorizado, e 
comeou a afastar-se, andando de costas, a tatear a porta. Sua mo 
tocou algo e no mesmo instante com uma velocidade sideral qualquer 
coisa o atingiu na cabea. Perdeu os sentidos.

 O cadver desaparece mais uma vez

  Leo acordou. Estava no cho, junto  parede, coberto por um lenol. 
Sua primeira preocupao foi descobrir se sangrava. No. Apalpou o 
corpo todo: estava inteiro. Ps-se de p, ao lado do carrinho que s 
tinha duas fronhas. O corpo do homem de cara de ndio desaparecera. 
Procurou manchas de sangue nas fronhas porque ia precisar de provas: 
no encontrou. Saiu da saleta s pressas, seguindo pelo corredor.
  No corredor Leo viu um funcionrio da lavanderia mas no lhe disse 
nada. Aquele era caso para a gerncia. Subindo pelas escadas, sem 
pacincia para esperar pelo elevador, foi para o saguo. Percival, o 
gerente, na portaria, telefonava. Fez um sinal descontrolado para o 
Guima e foi ao seu encontro.
  O porteiro notou que algo estranho se passava.
  -- Guima, encontrei o corpo.
  -- Que corpo? -- ele perguntou com a mesma descrena da vspera.
  -- L embaixo, numa das saletas. Estava num dos carrinhos da 
lavanderia coberto por lenis.
  -- Vamos l.
  -- Mas ele desapareceu.
<24>
  -- Desapareceu, como?
  -- Algum me deu uma pancada na cabea, ca, desmaiado, e quando 
acordei o corpo tinha sumido.
  -- Quem lhe deu a pancada?
  -- No vi. Ponha a mo na minha cabea. Deve ter um galo.
  Guima apalpou a cabea de Leo.
  -- No h nenhum galo.
  -- Guima, vamos falar com o Percival.
  A ausncia do galo esfriara o porteiro.
  -- Pensou bem no que vai fazer?
  -- Guima, tem um cadver l embaixo, escondido em algum lugar. A 
gente precisa achar ele.
  -- No posso sair daqui agora.
  -- Pea ao Percival.
  -- Venha comigo. Mas me deixe falar com o gerente. Fique calado, 
voc.
  Percival, que j desligara o telefone, viu Guima e o *bellboy* 
aproximarem-se, ambos hesitantes e nervosos. Por que Guima no estava 
na porta e o mensageiro atendendo aos chamados?
  -- Aconteceu alguma coisa?
  -- Sim -- disse o porteiro. -- Leonardo julga ter visto alguma 
irregularidade na lavanderia. Queria lhe pedir licena para 
acompanh-lo at l.
  -- Que irregularidade?
  -- Pode ter sido engano...
  -- Mas o que ele viu l?
  -- Bem, ele no viu, ele supe...
  O telefone tocou, era para o gerente, que atendeu e comeou a falar 
ingls. Como o telefonema parecia importante, despachou o porteiro e 
o *bellboy* com um movimento de mo.
  Leo e Guima desceram em seguida para a lavanderia, o primeiro 
apressado, o segundo mais lento e com receio de se envolver em 
encrencas. Logo chegaram  saleta onde o rapaz vira o cadver do 
homem de cara de ndio.
<25>
  -- Foi aqui que encontrei o corpo.
  -- A porta est arrombada.
  -- Eu arrombei.
  -- Por qu?
  -- Estava fechada a chave.
  -- Onde viu o corpo?
  -- Neste carrinho.
  -- Um homem cabe nisso a?
  -- Era pequeno, mais baixo que eu, e muito magro.
  -- Mas ele no est aqui.
  -- Deve estar noutra parte. Vamos procurar.
  Leo e Guima foram espiando todas as saletas sem nada encontrar de 
suspeito. Ao porteiro era incrvel que algum largasse um cadver no 
grande salo da lavanderia e por isso deixava a procura mais para o 
*bellboy*. Este, sempre que via uma montanha de roupa, dividia-a em 
pequenos montes, num trabalho nervoso e intil. A esta altura alguns 
funcionrios j chegavam, viam a confuso que Leo fazia com as 
fronhas e lenis, e no entendiam.
  -- Perdeu alguma coisa, moo? -- perguntou um deles.
  -- Estou procurando -- respondeu Leo.
  -- Posso ajudar? O que est procurando?
  -- Um cadver -- disse Leo sem interromper sua tarefa.
  O funcionrio riu e juntou-se a outros.
  Guima dirigiu-se a eles.
  -- Vocs viram alguma coisa que podia se parecer com um corpo 
humano?
  O funcionrio que rira puxou uma risada geral.
  -- Que palhaada  essa, Guima?
  -- Ento ningum viu nada?
  -- S na televiso. Alis, tem sempre, para todos os gostos. Ontem 
vi um seriado, *Crime no Hotel*, tinha gente morta at nos armrios.
  Guima olhou, desanimado, para Leo.
  -- Vamos subir.
<26>
  -- Ainda no revistamos tudo.
  -- Leo, ningum pode esconder um cadver no bolso. E deixe por 
minha conta. Digo ao Percival que voc sofreu uma iluso de tica, ou 
coisa assim, e nem toco na porta arrombada. E, por favor, esquea o 
assunto.
  -- No ser fcil, Guima.
  -- Faa fora, garoto.
  -- Est certo, mas que vi um cadver naquela sala, vi. E era o 
mesmo homem que estava no apartamento do Baro.
  -- No mencione o Baro para o Percival. Isso complica tudo.
  -- Guima, para voc no importa se houve assassinato aqui no hotel?
  Guima parou para dizer exatamente o que pensava:
  -- H muitos anos que me importo s comigo mesmo. E com as 
gorjetas. Para mim um assassino que d boas gorjetas quando chamo um 
txi  um timo camarada. Vamos subir. E boca fechada.
  Ao voltar ao saguo Leo j decidira definitivamente pr uma pedra 
naquela histria. Guima, experiente, dera-lhe o melhor conselho. O 
importante era continuar trabalhando no Park, numa boa, sem 
complicaes.
  Guima, cumprindo com o prometido, foi falar com o Percival.
  -- O rapazinho se enganou... Estava escuro e ele teve a impresso 
de ver qualquer coisa estranha na lavanderia. Nem soube explicar o 
qu.
  -- Por favor, mande ele ir ao meu escritrio.
  -- Mas era s isso. Tudo certo agora.
  Percival, muito srio, insistiu:
  -- Talvez no, Guima. Chame o moo.
  O porteiro, amigo de Leo e de todos os Fantini, ficou preocupado. O 
que queria o gerente, que por sinal no estava com boa cara?
  -- Algo errado com ele?
  -- V, Guima, no tenho muito tempo a perder.
  Guima foi encontrar o *bellboy* no saguo, carregando malas dum 
hspede recm-chegado.
<27>
  -- O Percival quer falar com voc.
  -- Sobre?
  -- No sei.
  -- Falou do cadver?
  -- Nenhuma palavra. V, cuido das malas.
  Leo, imaginando que o gerente j soubesse de alguma coisa sobre o 
assassinato, dirigiu-se ao escritrio esperanoso.
  Sentado, diante duma escrivaninha, Percival o aguardava fumando.
  -- Feche a porta -- ordenou.
  O rapaz obedeceu, subitamente nervoso.
  -- s ordens.
  Tudo parecia se resumir numa pergunta:
  -- Voc esteve ontem  tarde no 222?
  -- Fui levar jornais.
  -- Quero saber depois, quando o hspede j no estava no 
apartamento.
  -- Estive, sim, com o Guima. A camareira fazia a arrumao.
  -- Pode me dizer o que foi fazer l?
  Leo no pretendia mais abordar o assunto. A pergunta, porm, to 
direta, obrigava-o a contar tudo. Chegou a pensar em retardar a 
resposta, mas o olhar firme e insistente de Percival no permitiu.
  -- Eu fui... fui...
  -- Pare de gaguejar e fale duma vez.
  -- Bem, quando fui levar os jornais para o Baro, vi os ps duma 
pessoa debaixo da cama.
  -- Que histria  essa, garoto?
  -- Isso mesmo: vi os ps dum homem e o Baro estava com uma mancha 
de sangue no robe. A desci e falei com o Guima. Depois que ele saiu 
do apartamento, ns dois voltamos.
  -- Mas no encontraram ningum debaixo da cama.
  -- No encontramos, mas agora cedo, fui  lavanderia, e encontrei 
um cadver numa das saletas.
  -- Interessante!
<28>
  -- Mas me deram uma pancada na cabea e eu desmaiei.
  -- Ento voc chamou o Guima outra vez.
  -- Chamei.
  -- Desceram para a lavanderia e no viram mais o cadver.
  --  verdade. Tinha desaparecido.
  --  agora pensa que vou acreditar nisso?
  Leo j sentira que o caso, contado, parecia falso. Nenhum cadver 
desaparece duas vezes. Ele prprio no acreditaria se lhe contassem 
aquela histria.
  -- Seu Percival,  tudo verdade.
  -- Pois eu vou lhe dizer o que voc foi fazer no apartamento do 
Baro. Voltou para pegar uma coisa que realmente viu debaixo da cama. 
E usou o pobre Guima apenas para acobertar o seu roubo.
  Leo estremeceu.
  -- Roubo? No roubei nada.
  -- E deve ter roubado outras vezes. Sabamos que havia algum 
larpio entre os funcionrios e agora sabemos quem ele .
  -- Eu no sou ladro. Voltei ao apartamento  procura do cadver.
  -- Essa  uma inveno ridcula.
  -- Posso at descrever esse homem para o senhor. Eu o vi no 
apartamento do Baro e agora na lavanderia. Houve um crime aqui no 
hotel. No 222.
  Nesse instante a porta abriu-se e entrou o Baro com um ar de 
amargura e decepo. Olhou o mensageiro como se lhe tivesse uma 
profunda pena.
  -- Por favor, Percival, no despea o rapaz por causa disso. D-lhe 
outra oportunidade.
  -- Eu no fiz nada -- replicou Leo.
  -- Devolva o objeto -- pediu o gerente.
  -- Que objeto? -- perguntou o mensageiro indignado.
  O Baro, com uma voz paternal, explicou-lhe:
  -- Se no fosse algo de estimao eu permitiria que ficasse com 
ele. No  pelo seu valor,  pelo que representa sentimentalmente.
<29>
  -- Mas no sei do que esto falando.
  -- Sabe, sim -- garantiu Percival -- falamos do isqueiro.
  -- Isqueiro. O que ia fazer com um isqueiro se no fumo?
  -- Era de ouro e prata.
  A falsa acusao causou um alvio no *bellboy*, que chegou a 
esboar um sorriso.
  -- No vi isqueiro algum em seu apartamento.
  -- Deixei cair embaixo da cama -- disse o Baro.
  -- Nada tenho a ver com isso -- protestou Leo, tentando pr fim  
conversa.
  Percival levantou-se:
  -- Posso revist-lo?
  -- No  necessrio -- ops-se o Gordo. -- Vamos acreditar na 
palavra dele.
  O mensageiro repeliu a generosidade do Baro:
  -- Pode me revistar, sim -- bradou, em desafio. -- Quem no deve 
no teme.
  O gerente foi enfiando as mos nos bolsos de Leo at que o rapaz 
observou uma reao em seu rosto, logo transmitida afirmativamente ao 
Baro.
  --  este? -- perguntou Percival exibindo um belssimo isqueiro ao 
hspede.
  O Baro confirmou com um curto movimento de cabea como se sentisse 
o maior pesar em incriminar o *bellboy*.

 O primeiro dia de um desempregado

  -- Eu no roubei esse isqueiro -- afirmou Leo, aflito. -- Nunca o 
tinha visto.
  -- Ento como foi parar em seu bolso? Voando? -- gracejou 
maldosamente o gerente.
  -- Algum o enfiou enquanto estive desmaiado na lavanderia -- 
asseverou o rapaz. -- S pode ter sido.
<30>
  O Baro moveu-se em direo  porta, dizendo a Percival:
  -- Seja benevolente com o moo -- e saiu em seguida.
  Leo sentiu vontade de cuspir na porta que o hspede fechava, mas 
precisava defender-se doutra forma. Aproximou-se mais de Percival 
falando alto, com raiva, e gesticulando um tanto descontroladamente.
  -- Esse homem  um assassino! Ele matou uma pessoa. Vi o cadver na 
lavanderia, quase toquei nele. Acredite em mim. Talvez o corpo ainda 
esteja l embaixo.
  -- Voc est caluniando um homem que pratica a caridade, que d 
muito dinheiro aos pobres, aos velhos, s crianas e aos doentes. Tem 
um grande corao. Todos o admiram nesta cidade. A calnia  ainda 
pior que o roubo. Mas no serei benevolente como seu Oto pediu: vou 
despedi-lo agora mesmo e no espere que lhe d carta de recomendao. 
V tirar o uniforme, enquanto mando redigir a demisso.
  Atordoado, Leo saiu do escritrio. No saguo, tendo abandonado a 
porta do hotel, Guima o esperava, nervoso.
  -- Vi o Baro entrar no escritrio. O que aconteceu?
  -- Fui despedido.
  -- Voc no devia ter acusado o Baro.
  -- No foi por isso. Acusaram-me de roubar um isqueiro que lhe 
pertencia. E ele foi encontrado no meu bolso.
  -- No seu bolso?
  -- Sim, algum o colocou enquanto estava desmaiado.
  -- Vou falar com o Percival.
  -- No se meta, Guima.  a minha palavra contra a do Baro. E a 
prova  contra mim.
  -- Mas no pode ser acusado de roubo sem ter roubado.
  -- Tenho de agentar isso, Guima. Serei um ladro, sim, at que se 
descubra que o Baro  um homicida. Vou tirar o uniforme. No 
trabalho mais no Emperor Park Hotel. E eu que gostava tanto disto aqui!
  Guima apertou-lhe o brao, imprimindo-lhe na carne sua solidariedade.
<32>
  -- O que posso fazer por voc?
  -- Apenas uma coisa.
  -- O que, garoto?
  -- Acreditar que vi mesmo um cadver no 222 e na lavanderia.
  Guima comprimiu um sorriso entre os lbios, dando-lhe todo o 
crdito. Leo no era visionrio nem ladro de isqueiros. J no 
duvidava: realmente vira aquele corpo. S no entendia como 
desaparecera duas vezes.
  O ex-*bellboy* foi  sala dos mensageiros e trocou o uniforme pelo 
*blue jeans* e camiseta. 
 Olhou-se num espelho com tristeza. S no chorou com receio de que 
algum entrasse. Ia sentir falta do hotel, das gordas gorjetas e dos 
papos com o Guima. Retornou ao saguo, esperou alguns minutos at que 
o chamaram ao escritrio.
  No foi o Percival, mas um de seus assistentes, que entregou a Leo 
um cheque, relativo a seus direitos, e alguns papis para assinar.
  -- Por que est sendo despedido? -- perguntou.
  -- Porque encontrei um cadver na lavanderia -- respondeu, pondo o 
cheque e os papis no bolso.
  O jovem Fantini ia deixando o Park pela porta principal, mas mudou 
de idia e resolveu fazer mais uma visita ao subsolo. O trabalho l 
j era intenso e as montanhas de roupas iam sendo removidas para as 
mquinas de lavar. Os carrinhos, carregados ou no, circulavam dum 
lado e outro empurrados por funcionrios, homens e mulheres. O corpo 
no pode estar mais aqui, pensou Leo. Com certeza j foi levado para 
fora do hotel. No tenho mais o que fazer. Adeus!
  A volta para a Bela Vista foi lenta e cheia de pensamentos. Leo 
sabia que no seria fcil arranjar emprego melhor que o de mensageiro 
do Park, principalmente antes de ter um diploma na mo.
  Ao chegar em casa, foi direto  oficina. Seu pai lixava uma 
estatueta de madeira.
  -- Pai -- disse -- recebi o bilhete azul.
  -- Por qu?
  -- Fui acusado de roubar um isqueiro.
<33>
  Rafa largou a estatueta, revoltado. Depois, fez meno de vestir o 
palet.
  -- Vou dar uma surra em quem o acusou disso.
  -- Esquea, pai.
  -- Conte como a coisa aconteceu.
  Leo sentou-se num banquinho, pegou a estatueta que o pai lixava, e 
contou tudo a partir do chamado do Baro quando vira o homem de cara 
de ndio pelo espelho at a ltima vistoria no subsolo. O pai ouvia, 
atento, acreditando e sofrendo a cada lance da narrativa. Querendo 
consertar tudo com um simples sorriso, disse ao filho:
  -- No faz mal, fique trabalhando comigo. Preciso muito de voc, 
principalmente na feira.
  -- Aquelas gorjetas vo fazer falta.
  -- Leo, o que a gente perdeu est perdido. Parta pra outra. Voc 
ainda est no comeo da vida.
  -- Mas eu gostava do Park. 
 Era quase como trabalhar no cinema.
  Rafa retomou a estatueta, voltando a lix-la:
  -- Talvez ainda volte para l. Esse cadver vai ter que aparecer. E 
mesmo de boca fechada um morto pode falar.
  -- Quer que o ajude a lixar alguma pea?
  -- No, filho. Voc est aborrecido. V passear, distrair-se. Mas, 
se quiser, vamos  feira, domingo. Voc tem um jeito especial para 
vender estatuetas.
  No almoo, todos os Fantini j sabiam o que acontecera a Leo mas 
no se fez nenhum comentrio. 
 Apenas Diogo, o caula, no mantinha a naturalidade, olhando o irmo 
como se invejasse a aventura que o envolvera.
   tarde, Leo foi descontar o cheque do Park e deu quase todo 
dinheiro a Rafa. Depois passeou pelo Morro dos Ingleses mas no viu 
ngela. Melhor assim, no devia estar bom de papo.
  Aps o jantar, os Fantini receberam uma visita sempre agradvel, 
Guima, que, na oficina de Rafa, tomando cerveja, confirmou toda a 
histria de Leo. Rafa ouviu com a mesma indignao da manh, 
<34>
declarando seu desejo de dar uma surra no Baro e no gerente. Dona 
Iolanda, imediatamente, abriu outra cerveja, que era a forma mais 
simples de acalm-lo. O velho Pascoal esfregava as mos e mais nada. 
H muitos anos andava de briga com o mundo.
  -- No entendo por que no sumiram com o corpo ontem  noite --
disse Leo.
  -- Acho que tenho uma resposta para isso.
  -- Qual, Guima? -- quis saber o rapaz, interessado.
  -- H vigias noturnos no subsolo. Seria difcil retirar o cadver, 
por isso deixaram para hoje cedo.
  Para Leo a explicao satisfez.
  -- S queria saber quem o ajudou.
  -- Realmente o Baro no podia fazer tudo sozinho.
  -- Ele deve ter algum comparsa no hotel.
  -- Voc diz, morando no hotel?
  -- No, Guima, algum que trabalhe l. Nenhum hspede andaria com 
liberdade pelo subsolo.
  -- Pode ser.
  -- Voc lembra de algum funcionrio que seja amigo do Baro?
  -- Ele mora no Park h dois anos e deve conhecer muitos empregados, 
mas no sei de nenhum mais ntimo.
  Dona Iolanda interveio com firmeza:
  -- No se preocupe com isso, Guima. E voc, Leo, esquea.  assunto 
para a polcia. Poderia ter acontecido coisa muito pior no poro do 
hotel. Perder o emprego, foi o menos grave de tudo.
  Quando Guima se despediu dos Fantini, Leo acompanhou-o at o Fusca. 
Ainda conversaram por alguns momentos.
  -- Sua me tem razo -- disse Guima.
  -- Eu sei.
  -- Mesmo assim vou manter os olhos bem abertos. Tambm gostaria de 
saber quem  o scio do Baro no Park Hotel.
  Leo sorriu, grato. Tinha esperanas de provar ao gerente que no 
era ladro de isqueiro e que merecia ser um *bellboy*.

<35>
 Um cadver bia no rio

  No domingo bem cedo Leo foi  feira *hippie* com o pai e o nono. 
Era da Praa da Repblica, com a venda de estatuetas, que Rafa tirava 
o sustento da famlia. No se dizia que era um grande artista mas 
vender  tambm uma questo de simpatia e lbia, duas coisas que no 
faltavam ao ex-marceneiro. A estatueta de So Genaro, por exemplo, 
sempre tinha boa procura, como tambm as de Cosme e 
 Damio.
  Quando Rafa e Pascoal iam para o bar, beber cerveja, Leo se 
incumbia das vendas, sempre bem sucedidas porque ele apregoava alto e 
insistia quando algum demonstrava interesse.
  Naquele domingo, depois de vender alguns So Genaro, um JK e um 
bandeirante, Leo sentou-se numa cadeira de armar, sob a barraca, 
abriu um jornal e comeou a ler. Desde a vspera procurava notcia 
sobre um cadver desconhecido. E l estava ela na seo de 
ocorrncias policiais: fora encontrado o corpo dum homem boiando no 
Rio Tiet. E mais que isso: no havia morrido afogado e sim levara um 
tiro no corao, provavelmente a curta distncia. O morto no trazia 
identidade, mas a julgar pelos seus traos, supunha-se tratar de um 
estrangeiro.
  Deve ser o homem, pensou Leo. Mas estrangeiro, com aquela cara de 
ndio? A estava a dvida, pois sempre que se falava de estrangeiros 
pensava-se em pessoas altas e louras. A notcia, porm, no descrevia 
o corpo. Gostaria de v-lo, disse o rapaz com uma angstia que lhe 
doeria o resto do dia.
  No almoo, como havia prometido, Guima apareceu nos Fantini.
  O vinho, o macarro e as polpetas no permitiram que tocassem no 
caso desagradvel do hotel. Todos pareciam estar com muita sede e 
apetite, menos Leo, que s pensava naquilo.
  Depois do almoo, o rapaz conseguiu ficar a ss com o Guima.
  -- Acharam um corpo boiando no rio, pode ser o homem.
  -- Sempre h corpos boiando nos rios.
  -- Mas esse no morreu afogado, levou um tiro.
<36>
  -- O que mais o jornal diz?
  -- Ele no foi identificado, mas parece estrangeiro.
  -- No trouxe retrato?
  -- No.
  -- Ento no h jeito de saber.
  -- H, sim, Guima. Basta ir ao Instituto Mdico Legal.
  -- Mas voc no vai fazer isso.
  -- No quer ir comigo?
  -- Leo, seus pais no querem que se meta. E eles esto certos. O 
Baro  rico, forte como um couraado, afaste-se dele.
  -- Gostaria de ir ao Instituto.
  -- Eu tambm. Mas no vou nem voc.
  Rafa voltava com outra garrafa de vinho e o tema foi posto de lado.
  Ao anoitecer, Guima e os Fantini, de barriga cheia, sentaram-se 
diante da televiso. Havia um programa humorstico e todos riam 
muito, com exceo de Leo.
  Quando foi para a cama, quase  meia-noite, Leo j tomara uma 
deciso.

 As coisas ficam pretas

  Assim que Leo disse que queria ver o corpo encontrado no Tiet, foi 
levado sem problemas por um homem de avental e outro com jeito de 
detetive  geladeira do Instituto.
  -- Supe que seja algum parente? -- perguntou o do avental.
  -- No -- respondeu o rapaz com um tremor na voz. Bastava um 
monosslabo para evidenciar seu nervosismo.
  -- Algum amigo? -- insistiu o de jeito de detetive.
  -- Tambm no.
  Mesmo antes de abrirem a gaveta, Leo j se arrependera do passo e 
desejava ardentemente que o homem do rio no fosse o do 222 e da 
lavanderia. Estava desobedecendo o conselho do Guima e dos pais e 
isso o inquietava.
<38>
  O do avental puxou a gaveta.
  -- D uma espiada, rapaz. No foi pra isso que veio?
  Leo olhou como se filasse as cartas dum baralho observado com 
ateno pelos dois homens. A gaveta estava puxada mas no via nada, 
apenas sentia as batidas de seu corao. Quando um cheiro forte, 
talvez formol, lhe atingiu as narinas arregalou os olhos e 
fotografou.
  Sim, era o homem, o de cara de ndio, o homem do 222 e da 
lavanderia, o que o Baro matara.
  -- Conhece ele? -- perguntou o do avental.
  -- Pode fechar -- respondeu Leo.
  A gaveta foi fechada mas a pergunta continuou no ar.
  -- Se conhece, diga logo.
  Leo no sabia se afirmava ou negava. Para negar teria que fingir, 
representar, e ele no era artista.
  -- Acho que conheo -- disse.
  O do avental fez um gesto largo para o detetive, como se dissesse: 
o caso agora  com voc.
  -- Voc acha ou conhece mesmo? -- perguntou o policial.
  -- Conheo.
  -- Como  o nome dele?
  -- No sei.
  -- Ele era estrangeiro?
  -- Nada sei a respeito dele.
  -- A polcia acha que deve ser boliviano ou peruano. Que idioma ele 
falava?
  Leo sacudiu a cabea.
  -- Nunca o ouvi falar.
  -- Lidava com txicos?
  -- Como disse, nada sei sobre esse homem. S o vi vivo uma vez, e 
por uns segundos. E depois quando j estava morto.
  -- Onde foi isso?
  -- No Emperor Park Hotel.
  -- Vamos  delegacia. Mas espero que no v fazer o delegado perder 
tempo.
<39>
  O detetive, que o homem do avental chamava de Lima, levou Leo para 
a rua onde apanharam um txi. O trajeto foi curto e reduzido a poucas 
palavras, sem novos esclarecimentos. Mas o rapaz ficou sabendo que 
fora a nica pessoa que comparecera para reconhecer ou identificar o 
corpo.
  Na delegacia, Leo teve que esperar uns dez minutos numa sala 
enquanto Lima conversava com o delegado. Depois, a prpria autoridade 
abriu a porta e pediu que entrasse. Lima j no estava l. Uma 
espcie de secretrio ou escrivo apontou uma cadeira para Leo. Antes 
de mais nada, o delegado fez-lhe algumas perguntas cujas respostas 
iam sendo anotadas numa ficha: nome, idade, residncia e nomes dos 
pais.
  -- Ento voc conhecia aquele homem?
  -- Sim, eu o vi quinta-feira no Emperor Park Hotel, onde era 
mensageiro.
  -- Estava hospedado l?
  -- No, eu o vi no apartamento 222, do senhor Oto, um hspede 
permanente. Mas ele no me viu. Nem o senhor Oto percebeu que o tinha 
visto.
  -- Como foi isso possvel?
  -- Eu o vi pelo espelho interno do guarda-roupa.
  -- O que tinha ido fazer no apartamento?
  -- Atender a um pedido desse senhor, queria jornais.
  -- Continue.
  -- Quando voltei o hspede deixou cair os jornais, eu me abaixei e 
ento vi os ps debaixo da cama. Quando levantei, percebi que havia 
uma mancha de sangue, pelo menos me pareceu que fosse, no robe de seu 
Oto. Tambm achei que estava muito nervoso.
  -- Prossiga.
  -- Contei o que vira ao seu Guimares, o porteiro, e umas duas 
horas depois, quando o hspede j sara, voltamos ao apartamento, mas 
no encontramos o cadver.
  -- Quer dizer que sumira do apartamento?
  -- Sim.
<40>
  -- Esse senhor saiu com alguma mala ou coisa assim?
  -- No.
  O delegado fez um ar descrente.
  -- O tal de Guimares acreditou que voc tinha visto um corpo sob a 
cama do hspede?
  -- No muito.
  -- Acreditou ou no acreditou?
  -- Acho que no.
  -- E o que aconteceu depois?
  A visvel descrena do delegado dificultou a narrao de Leo, que 
passou a engolir saliva, gaguejar e elevar o tom de voz, como se 
pretendesse dar-lhe mais convico.
  -- No dia seguinte cedo decidi procurar o corpo no subsolo e fui  
lavanderia. Achei que o corpo estava escondido l.
  -- Por que achou?
  -- No sei. Talvez porque os empregados da lavanderia ainda no 
estavam trabalhando. Havia os carrinhos para transporte de roupa 
suja. Imaginei que o corpo estaria num deles. Mexi na roupa de todos 
at que vi um desses carrinhos com um monte de lenis numa saleta 
fechada. Ento arrombei a porta da saleta.
  -- Ningum viu voc fazer isso?
  -- Ningum.
  -- No seria mais fcil chamar um dos responsveis?
  -- Pensei que s acreditariam em mim se aparecesse com o corpo 
dentro do carrinho.
  -- Ento arrombou a porta?
  -- Arrombei e fui logo tirando os lenis do carrinho. E o cadver 
estava l, o mesmo da geladeira.
  -- E depois?
  -- Quando ia sair, algum me deu uma pancada na cabea. Ca, sem 
sentidos.
  -- Essa pancada deixou algum ferimento ou calombo?
  -- Doeu muito mas no deixou nada.
  -- Continue.
<41>  
  -- Quando acordei o corpo no estava mais l.
  O delegado e o secretrio ou escrivo trocaram olhares que 
significavam descrena ou gozao. O segundo desaparecimento do 
cadver acentuava a impresso de histria inventada.
  -- E o que voc fez, moo?
  Ainda com mais dificuldade para falar, Leo prosseguiu:
  -- Fui contar tudo a seu Percival, o gerente.
  -- E ele?
  -- Ele me demitiu.
  Depois de nova troca de olhares com o outro homem:
  -- Por qu?
  -- Porque Oto, o hspede do 222, me acusara de ter roubado seu 
isqueiro. Um isqueiro muito caro, de ouro e prata.
  Leo sentiu que embora o delegado ainda no conhecesse o Baro j 
lhe dava mais crdito que a seu acusador. Ento teve uma idia: no 
relatar ainda que o isqueiro aparecera em seu bolso. Se o fizesse, 
poderia ser detido para averiguaes. Afinal o Baro tinha uma 
testemunha do destino de seu isqueiro: o gerente do hotel.
  -- Mas quem  esse homem? -- perguntou o delegado. -- O tal Oto.
  --  um homem muito conhecido.
  -- No vai me dizer que  Oto Barcelos?
  -- Parece que sim.
  -- Mas esse homem  um santo! No h uma criana, um doente ou 
velho nesta cidade que no lhe deva alguma coisa.
  -- Eu tambm gostava dele. Me dava muita gorjeta.
  -- Mesmo assim vem aqui acus-lo?
  -- Ele matou um homem, doutor.
  O delegado ficou pensativo e sem pressa para tomar uma resoluo. 
At levantou-se e deu um passeio pela delegacia.
  -- Se o homem  mesmo Barcelos o caso  mais delicado. No posso 
intim-lo como se fosse um criminoso comum. -- E disse a seu 
secretrio: -- Telefone ao Park Hotel, fale com Oto Barcelos, e diga 
que vou visit-lo hoje s trs horas.
<42>
  -- Avisando, ele fugir -- opinou Leo, precipitado.
  -- Se estamos falando da mesma pessoa, ela no fugir. Alm do 
mais, conversei com Barcelos, mais de uma vez, sobre assuntos 
assistenciais. Ele me conhece bem. Oto Barcelos! Sua esposa morreu 
num desastre de avio. Desde ento passou a dedicar-se  filantropia. 
Tem certeza de que  esse o homem?
  -- Oto, do 222, um senhor gordo que faz caridade.
  -- Bem, vou cuidar do caso pessoalmente. Agora v para casa. 
Provavelmente ainda ser chamado. Quem sabe ainda hoje.
  Leo levantou-se, despediu-se com um movimento de cabea e saiu da 
sala com a certeza de que no fora acreditado. Sua sorte seria se o 
Baro fugisse. Era a esperana de sair-se bem de tudo.
  Com muita pressa, Leo apanhou um txi:
  -- Me leve ao Emperor Park Hotel.
  Foi uma viagem curta mas angustiada. Leo parou perto do Park e 
ficou  espera. Quando viu Guima  porta, chamou-o fazendo sinais. O 
porteiro levou um susto e aproximou-se adivinhando novas encrencas.
  -- O que foi, garoto?
  -- Fui reconhecer o corpo do homem encontrado no rio. Era ele 
mesmo, o que o Baro matou.
  -- Bem, o que quer que eu faa?
  -- O resto fui eu mesmo que fiz. Um detetive me levou  delegacia e 
acusei o Baro.
  -- Voc fez isso?
  -- Fiz, o delegado vir aqui s trs da tarde. Mas tem uma coisa: 
no acreditou muito em mim.
  -- J esperava, garoto.
  -- Eu contei tudo direito, menos que o isqueiro foi encontrado em 
meu bolso.
  -- Disso o Baro vai se incumbir.
  -- Estou com medo, Guima.
  -- Eu tambm estou. Conhece aquela histria do feitio que vira 
contra o feiticeiro, no?
<43>
  -- Conheo, sim.
  -- O importante, garoto,  que no se deixe prender, se no ainda 
ser acusado de matar o tal homem. Vou lhe dar a chave de meu 
apartamento. Passe a tarde l e no saia antes que eu aparea ou 
mande algum recado. Entendeu bem?
  -- Entendi, Guima.
  -- Seus pais sabem que foi reconhecer o corpo?
  -- No, fiz essa besteira sem dizer pra ningum.
  -- Ento no diga. No v preocup-los antes do tempo. Depois do 
almoo, esconda-se. Aqui est a chave.
  Leo enfiou a chave no bolso e afastou-se. Voltou para casa. 
Tentando agir naturalmente, almoou o suficiente para no demonstrar 
inquietao, e dirigiu-se ao apartamento de duas peas do Guima, que 
era l mesmo, num pequeno edifcio da Bela Vista.

 A histria aconteceu assim

  Guima trabalhava at as seis. Leo calculou que s seis e meia j 
estaria de volta. Meia hora do Park  Bela Vista. Mas nada do Guima 
s seis e meia, sete, sete e meia. S apareceria s oito horas, muito 
alm do costume.
  Ao ouvir a campainha, Leo abriu a porta. Guima havia trazido comida 
enlatada.
  -- Est com fome?
  -- No.
  -- Dona Iolanda disse que comeu pouco. Deve estar, sim.
  -- Voc esteve em minha casa?
  -- Vim de l agora.
  -- Guima, me conte, o que aconteceu?
  -- Claro que vou contar. Mas vai ter que jantar.
  -- O delegado esteve no hotel?
  -- Esteve, s trs em ponto, ele e um tira chamado Lima. Eu o 
reconheci pelos retratos nos jornais. Chama-se doutor Arruda.
<44>
  -- Por favor, Guima, comece. Estou aqui desde as duas horas.
  -- Vamos para a cozinha. Conto enquanto preparo a comida. Aqui no 
 o Park, a comida  em lata. E eu no tenho nada contra ela. Apenas 
meu estmago.
  Guima rodeou mas contou tudo com detalhes e continuidade. Desde que 
Leo aparecera no hotel ficou muito atento. Viu quando o Baro chegou 
e apanhou o recado telefnico na portaria. Devia ser do delegado. Em 
seguida, dirigiu-se com suas banhas, apressado, aos elevadores. Guima 
acreditou que fugiria mas isso no aconteceu. Uma hora depois, 
almoava tranqilamente no restaurante do hotel. Depois, foi at a 
portaria e conversou com um dos funcionrios em servio. s duas e 
meia um grupo de mulheres da sociedade apareceu  sua procura. Eram 
benemritas que sempre o visitavam para pedir donativos ou apoio s 
suas campanhas assistenciais. Foram conduzidas a um salo anexo ao 
das convenes. Guima, embora nada tivesse a fazer por l, viu quando 
o Baro chegou, vestido  esportiva, e beijou cortesmente as mos das 
senhoras, coisa que sabia fazer muito bem.
  Ao passar novamente pela portaria, Guima recebeu uma ordem do 
prprio gerente: quando chegasse o doutor Arruda deveria lev-lo ao 
salo onde o Baro recebia as senhoras.
  Guima viu quando o doutor Arruda entrou no hotel com outro homem e 
foi ao encontro deles.
  -- Vieram falar com seu Oto?
  -- Viemos.
  -- Ele est recebendo umas senhoras. Me acompanhem.
  Guima levou o delegado e o tira ao salo. O hspede do 222, de p, 
diante das senhoras sentadas, hipotecava seu apoio a uma campanha em 
prol do Natal das crianas pobres. O Baro mostrava-se entusiasmado 
pela idia, dizendo que participaria no apenas com donativos mas 
tambm com sua experincia. Afinal, j dirigira muitas campanhas de 
fim de ano.
  -- Agora tudo deve ser planificado -- disse -- at as atividades 
do corao. Fazer o bem, por mero impulso, s vezes resulta apenas em 
desperdcio.
<46>
  As senhoras com sorrisos, manifestaram sua gratido.
  -- Mas isso vai lhe tomar tempo, Baro.
  -- O meu j doei todo aos necessitados. Foi meu maior donativo.
  Agradecidas, as mulheres despediram-se de Barcelos e deixaram o 
salo quando o delegado e o detetive se aproximaram.
  -- Sou o delegado Arruda, Baro.
  O hspede do 222 sorriu.
  -- Baro  apelido, devido  minha gordura.
  -- E  nobreza de seu corao -- acrescentou o delegado.
  -- Recebi seu recado, mas no precisava vir. Eu iria  delegacia 
com todo o prazer. Mas o que fez o gerente do hotel, deu parte do 
garoto?
  Guima afastou-se alguns passos mas ainda podia ouvir. Seria esta a 
inteno do Baro?
  -- No, ele apareceu espontaneamente.
  -- Confessou outros roubos?
  -- Por que, ele roubou alguma coisa?
  O Baro tirou o isqueiro do bolso.
  -- Roubou o meu isqueiro, e seu Percival, o gerente, desconfia que 
tenha roubado outros objetos. Mas no quero apresentar reclamao 
alguma. Por mim nem teria sido demitido.
  -- Isso ele no me contou -- disse o delegado olhando para o Lima. 
-- Disse apenas que o tinham acusado de roubo.
  -- Mas ento o que ele foi fazer na polcia?
  -- Foi reconhecer um cadver encontrado boiando no Tiet. Disse que 
conhecia o homem.
  -- J sei dessa histria -- lembrou o Baro com um sorriso. -- Esse 
rapazinho  mesmo um ficcionista. Mas no precisava ir to longe para 
se inocentar. A no ser que lhe falte um parafuso.
  -- Ele de fato viu algum no seu apartamento?
  -- Eu estava com um amigo, o Anbal.
  -- O garoto contou que ao voltar, com os jornais, havia um corpo 
debaixo da cama.
  O Baro tornou a sorrir, ex-
 pondo mais os lbios.
<47>
  -- Que bons olhos tem o garoto! Realmente havia algum debaixo da 
cama, o Anbal, que estava apanhando uma abotoadura. Ainda sou do 
tempo das abotoaduras. E com esse corpo de elefante no dava para 
pegar. Para o Anbal, magro e pequeno, foi fcil.
  O delegado e o Lima quase gargalharam desta vez.
  -- E a mancha de sangue no robe?
  -- *Ketchup*. No dispenso *ketchup*.
  -- Depois ele disse que encontrou o tal homem num carrinho de roupa 
suja na lavanderia.
  -- Pode ser, mas no era o meu amigo. Ele est bem vivo e posso lhe 
dar o endereo. Anbal Tibiri  meu contador.
  -- No  preciso -- disse o delegado, convencido. -- Est tudo 
muito claro. Agora vou conversar com o gerente. Desculpe-nos pelo 
aborrecimento, Baro.
  -- Aborrecimento nenhum.
  -- E felicidades em sua nova campanha.
  Guima contou, em seguida, que acompanhou o delegado e o detetive 
at a gerncia, onde Percival fez uma lista de objetos desaparecidos. 
Alguns pertenciam aos hspedes, outros ao prprio hotel.
   sada, o porteiro perguntou ao doutor Arruda:
  -- O que vai acontecer ao garoto?
  -- Vamos  sua casa, agora. Alm de caluniador, saiu-se um belo 
ladrozinho.
  Assim que terminou o horrio de trabalho, Guima tirou o uniforme, o 
que o deixava mais magro e menos imponente, e correu para a casa dos 
Fantini. Encontrou toda a famlia sobressaltada com a visita do 
delegado. Guima tranqilizou Rafa e Iolanda informando que Leo estava 
em seu apartamento.
  -- Mas no vai poder ficar l muito tempo. No hotel todos sabem 
que somos amigos.
  -- Ele deve ir para a casa da tia Zula -- disse dona Iolanda.
  -- A que  cozinheira da cantina?
  -- Essa, l ele poder ter a companhia do Gino, seu primo.
  Guima comeou abrir as latas.
<48>
  -- Voc deve ficar l at que as coisas se esclaream. Agora vamos 
comer, depois voc v televiso, dorme e amanh bem cedo eu o levo  
casa de sua tia.
  -- Guima, obrigado por tudo.
  -- Dizem que no se pode confiar em ningum com mais de trinta anos 
mas j tenho cinqenta.
  -- S mais uma pergunta.
  -- Duas, se quiser.
  -- O que achou do comportamento do Baro nisso tudo?
  --  um homem muito seguro de si e esperto. Mas, embora no seja 
detetive, no tenho a menor dvida: ele matou o homem que voc viu no 
222.
<P>
 Escondido na casa de tia Zula

  Tia Zula morava numa das menores e mais antigas casas da Bela 
Vista, dessas de porta e janela, baixinha, h muitos anos ameaada 
pelo progresso. A fachada da casa j fora pintada muitas vezes, desde 
sua construo, no comeo do sculo, e ainda mostrava vestgios de 
muitas cores. O mesmo acontecia com a porta e a janela. Mas no 
interior tudo era muito limpo, e os mveis, pesados e escuros, muito 
bem conservados.
  Tia Zula, irm de sua me, era viva h muitos anos, trabalhava 
como cozinheira numa das cantinas do Bexiga, e tinha um filho de 
vinte anos, chamado Gino, paraltico, sempre numa cadeira de rodas. 
Zula era uma mulher muito ativa, e Gino, apesar da doena, puxara seu 
temperamento. Ele se movimentava bastante na cadeira, ajudava a 
arrumar a casa, atendia  porta, fazia diversos cursos por 
correspondncia, era apaixonado por futebol e ganhava algum dinheiro 
traduzindo livros infantis do ingls.
  Leo foi levado  casa de Zula por Guima em seu Fusca. No sabia se 
devia ou no contar  tia sua complicada aventura. Mas no teve esse 
trabalho. Assim que ela abriu a porta, foi dizendo:
<50>
  -- Seus pais estiveram aqui ontem  noite. Que homem maldito, esse 
Baro!
  -- Titia, vou dar muito trabalho pra senhora.
  -- Eu j dei trabalho aos seus pais quando Gino era pequeno. O que 
no quero  que abra a porta. Deixe o Gino abrir. Voc vai dormir no 
quarto dele. Pus outra cama l.
  Leo despediu-se de Guima, que lhe prometeu continuar bem atento no 
hotel.
  Leo foi cumprimentar seu primo Gino. Sabia que ele ia ser o seu 
amigo naqueles dias amargos. Gino abraou-o alegremente e tentou 
deix-lo bem  vontade. Quando Zula foi para a cantina, l pelas dez 
horas, o primo quis que contasse com detalhes tudo que acontecera. Em 
nenhum momento mostrou dvida ou a menor descrena.
  -- Fiz mal em querer reconhecer o corpo do homem -- disse Leo.
  -- Acho que no. Fez muito bem.
  -- Mas veja em que situao estou agora!
  -- Leo, a verdade  como a fumaa, sempre aparece.
  --  uma boa frase.
  -- Li num livro, se no me engano, policial.
  -- Ento acha mesmo que fiz bem?
  -- J imaginou o susto que voc deu nesse tal gordo?
  -- Um susto nem sempre basta.
  -- Mas s vezes desorienta. Aposto que ele no est dormindo muito 
tranqilo.
  -- Mais cedo ou mais tarde ele some -- disse Leo.
  -- No, ele no vai sumir. No disse que vai colaborar na campanha 
de Natal daquelas senhoras? Se desaparecesse estaria levantando 
suspeitas. E  muito esperto para isso.
  -- Voc tem razo.
  -- Sabe jogar xadrez? 
  -- Um pouco.
  -- Ento vamos jogar. Dificilmente consigo parceiro. O pessoal do 
Bexiga prefere damas e domin.
  Mesmo se conseguisse fixar a ateno, Leo seria derrotado nas 
<51>
trs partidas que jogou com Gino. Numa delas, seu rei caiu em quinze 
lances. Noutra, perdeu a rainha logo no incio.
  -- J vi que  muito bom nisso.
  -- Voc deve ser melhor que eu em corrida de duzentos metros com 
barreira -- replicou Gino, que sempre fazia aluses engraadas  
paralisia de suas pernas.
  -- Voc daria um campeo nesse jogo.
  -- Eu s no perteno ao Clube de Xadrez porque l no h ram-
 pas. Para quem teve paralisia infantil as escadas so piores que o 
Baro do 222. Creio que  a nica coisa que me derrota. O resto  
moleza.
  Leo sentiu que a companhia de Gino era a melhor que poderia ter em 
momentos como aqueles. Em troca das pormenorizadas descries que 
fazia do Emperor Park Hotel, estimulantes  imaginao do primo, 
recebia aulas prticas de ingls. Gino costumava dizer que se algum 
dia faltassem as tradues dos livros infantis, tentaria viver como 
telefonista poliglota dum grande hotel. E Leo, agora que o conhecia 
melhor, com aqueles olhos apertados e vivos, no duvidava que 
chegasse  Presidncia da Repblica, com sua cadeira de rodas, pois 
havia rampa no Palcio da Alvorada, em Braslia.
  Gino, assduo leitor de jornais, foi quem encontrou num vespertino 
uma notcia quente para Leo, ilustrada com a foto dum homem. Um 
detento reconhecera o desconhecido encontrado boiando no rio. 
Chamava-se Ramon Vargas, boliviano. A polcia em seguida confirmou a 
identidade, pois Ramon j estivera preso uma vez, implicado em 
trfico de txicos. O jornal informava ainda que ele morava no Hotel 
Acapulco, de terceira categoria, na Rua Vitria.
  --  ele, primo?
  -- Claro! Mas no era ndio.
  -- Na Bolvia espanhis e ndios se misturaram muito.
  -- Acha que isso vai me ajudar?
  Gino no se mostrou otimista.
  -- No vejo em que, primo.
  -- O chato, Gino,  ficar aqui, com os braos cruzados, sem poder 
fazer nada.
<52>
  -- Tem razo, isso  chato.
  -- Algum deve ter ajudado o Baro a remover o corpo para a 
lavanderia e depois para o rio.
  -- Quem sabe o tal amigo, Anbal, que disse estar com ele no 
apartamento.
  -- No, Gino, a pessoa que o ajudou trabalha no hotel. Um estranho 
no desceria o elevador com o carrinho de roupas sujas.
  -- Por que no descobre quem foi essa pessoa?
  -- Descobrir como, se no trabalho mais l?
  -- O Guima pode fazer isso.
  -- O Guima conhece todos os funcionrios do hotel.  veterano l.
  -- Vamos falar com ele?
  -- Como?
  -- Logo adiante tem um orelho. Vou telefonar pra ele, dizer do que 
se trata e pedir que venha aqui hoje  noite com uma lista de 
suspeitos.
  -- Voc pode sair com a cadeira?
  -- Por que no? No h escadas na rua. Me d o nmero do telefone. 
Vou j.
  Num minuto Gino saiu com sua cadeira de rodas como se estivesse 
dirigindo um veculo feito apenas para economizar gasolina. Na sua 
ausncia, Leo entusiasmou-se com a idia de contra-atacar. Afinal j 
fizera loucura em procurar o cadver na lavanderia e em identific-lo 
no Instituto Mdico Legal. E estava sendo procurado pela polcia como 
ladro. Piores as coisas no ficariam. O Baro que se cuidasse. Ia 
levar um novo susto. Ou xeque, pensou, olhando o tabuleiro de xadrez 
de Gino.
  O primo voltou bem depressa:
  -- Guima vem s oito com a lista.

 A lista

  Guima compareceu pontualmente, mas a p para que ningum 
identificasse seu carro. Como tia Zula, aquela hora, ainda trabalhava 
na cantina, os trs puderam ficar bem  vontade na sala.
<53>
  -- A lista no  muito grande porque j fiz alguns cortes -- disse 
o porteiro. -- A no tem, por exemplo, nenhum nome de mulher, pois 
dar uma pancada na cabea me parece coisa de homem. Eliminei tambm o 
pessoal da cozinha e do restaurante: nunca entram em contato com os 
hspedes. Cortei os que s funcionam no perodo noturno, j que tudo 
aconteceu de dia.
  -- Mesmo assim a lista ainda est grande -- observou Gino. -- 
Talvez possamos fazer mais cortes.
  -- Eu cortaria os empregados mais novos -- sugeriu Leo.
  -- Boa idia! -- exclamou Guima, entendendo o motivo. -- O Baro no 
se arriscaria aliciando algum que mal conhecesse. -- E imediatamente 
passou o lpis em quatro nomes da lista.
  Gino enrugava a testa para extrair da cabea nova sugesto. Era 
como fazia quando jogava xadrez.
  -- Tenho outro corte -- anunciou.
  -- Qual? -- Leo e Guima quiseram saber.
  -- Ouam bem. O Baro no precisaria, no hotel, de um colaborador 
intelectual. Cabea ele tem. Convocaria um homem de ao e 
provavelmente muito forte.
  Guima e Leo entreolharam-se examinando a idia. Leo foi o primeiro 
a aprov-la.
  -- Parabns, Gino! Essa  uma boa! O que diz, Guima?
  -- De acordo, Gino -- disse o dono da lista de lpis em punho. -- 
Agora, sim, d para cortar muita gente. Os mais fracos e os muito 
idosos.
  --  como se estivssemos fazendo um retrato-falado! --
entusiasmou-se Leo.
  Guima ia eliminando nomes.
  -- Vamos pensar mais um pouco -- disse Gino, lcido e calmo. -- O 
ideal  reduzir a lista a uns trs ou quatro.
  Concentraram-se num nico pensamento; Guima tamborilava os dedos na 
mesa.
  -- Sabe duma coisa? -- lembrou Gino. -- Estamos precisando dum 
caf. Volto logo. -- E rumou com a cadeira para a cozinha.
  Logo mais, tomando caf, os trs se sentiam mais prximos duma nova 
sugesto eliminatria.
<54>
  -- Achei! -- bradou Leo.
  -- Vamos. Qual ?
  Leo no agentou, teve de ficar de p.
  -- Essa  genial!
  -- Deixemos os elogios para depois -- exigiu Gino. -- O que voc 
bolou?
  -- A pessoa que me agrediu enfiou um isqueiro no meu bolso. Isso 
significa o qu? Significa que ela  fumante. Guima, tire da lista os 
empregados que no fumam.
  -- Um momento -- atalhou Gino. -- Acha que um modesto funcionrio 
do hotel teria um isqueiro to valioso?
  -- Poderia ser presente do Baro!
  Os dois admitiram que sim.
  -- Bem -- disse Guima -- no sei exatamente quais os que no fumam, 
mas uns trs recordo com toda a certeza. -- Riscou os nomes. -- De 
qualquer forma a lista est diminuindo.
  -- J vejo o perfil do homem! -- exclamou Leo.
  Mas o trabalho da por diante tornou-se mais difcil. Restavam na 
lista dez nomes, dez enigmas.
  -- Agora s adivinhao -- concluiu Guima.
  -- Nada de adivinhao -- reprovou Gino. -- Tudo deve ser lgico 
como no xadrez. Restam dez nomes? Voc que conhece todos, examine um 
a um. Comece. Qual o primeiro desses dez eliminaria da lista?
  Guima concentrou-se, tomou mais um gole de caf.
  -- Este, por exemplo, Rubens da Silva, est no hotel desde a 
inaugurao e sempre trabalhou em hotis. Tem inclusive um cargo no 
sindicato.
  -- Risque -- ordenou Leo. -- Conheo o Rubens. Homem muito direito.
  -- Isso me d outra idia -- falou Gino. -- Eu eliminaria da lista 
todos os que j trabalhavam antes da chegada do Baro e os que sempre 
exerceram a profisso. Pensem bem. Acho que o Baro no se arriscaria 
envolvendo um estranho nessa trama toda. Seu comparsa deve ser um de 
seus homens e no parceiro de ltima hora.
<55>
   medida que Gino falava, Guima ia sacudindo a cabea, concordando. 
E apanhou o lpis.
  -- Posso cortar o Gustavo, tambm empregado desde a inaugurao, 
com mais de vinte anos de hotel.  uma dessas pessoas que morreriam 
se tivessem de mudar de profisso. Por outro lado, no  nada 
ambicioso.
  -- Oito -- disse Leo. -- Corte mais.
  -- Cortaria tambm o Bris.  uma espcie de chefe dos camareiros. 
J foi gerente de pequenos hotis. Toda sua famlia se dedica ao 
ramo.
  Leo e Gino ficaram bem calados para que o silncio ajudasse o Guima 
a pensar.
  O porteiro riscou mais um nome.
  -- Quem riscou? -- perguntou Leo.
  -- Renato, outro tpico funcionrio de hotel. Acho que jamais 
ganhou um centavo noutra profisso. E  da turma da inaugurao.
  -- Restam sete. Corte mais, Guima.
  -- No corte apenas para diminuir a lista. Se tiver alguma dvida 
sobre a pessoa, mantenha -- advertiu Gino.
  Guima riscou mais um nome: Aderaldo.
  -- Este corto somente porque  meu amigo e sei que no se meteria 
em coisas desonestas e perigosas.
  Os trs ficaram olhando para os seis nomes que haviam sobrado como 
se formassem um jogo de palavras cruzadas.
  Leo tinha mais uma sugesto a fazer embora timidamente:
  -- Dos seis, quantos trabalham na lavanderia?
  -- Trs -- respondeu Guima imediatamente.
  -- Vamos nos concentrar nesses -- disse Gino. -- Afinal o corpo foi 
para a lavanderia. Sua idia tem bastante lgica, Leo. A presena de 
algum que trabalhasse noutro departamento chamaria muito a ateno.
  -- Nem tanto -- atalhou Guima -- os camareiros vo freqentemente 
ao subsolo.
  -- Quem so os trs? -- indagou Leo.
<56>
  Guima foi lendo os nomes e fazendo comentrios.
  -- Maneco, um portugus muito forte. Trabalha h mais de um ano na 
lavanderia; Luizo, um crioulo que no gosta de falar muito. E Hans, 
Hans  o chefe ou encarregado como dizem.
  -- Ser que eles ou algum deles conhece o Baro?
  -- No sei, Gino -- respondeu Guima.
  -- Voc conhece bem os trs?
  -- Apenas o Alemo,  o apelido de Hans.
  Gino fez uma pergunta direta:
  -- Qual desses tem mais cara de delinqente?
  Guima balanou a cabea, incapaz de dar uma resposta.
  -- Para mim so unicamente lavadores de roupa.
  Houve uma longa pausa de desnimo total. A lista fora reduzida a 
trs nomes mas a grande incgnita persistia. E nada induzia a 
desconfiarem mais de um do que dos outros. Leo e Guima olharam para 
Gino, o jogador de xadrez, de quem esperavam um lance 
superinteligente, mais um xeque no ao rei mas ao Baro.
  -- O que esses homens faziam antes de trabalharem no Park?
  Guima tornou a balanar negativamente a cabea:
  -- No sei.
  -- Era o que gostaria de saber -- disse Gino. -- Voc pode 
descobrir?
  -- Posso, no Departamento de Pessoal.
  -- Acha que dariam a informao?
  -- Claro que no informam, mas um dos rapazes que trabalham l, o 
Danilo,  uma espcie de afilhado meu. E deve o emprego a mim. Se ele 
for legal, como espero, poder dar uma olhada na ficha dos trs. Cr 
que vai ser til?
  Gino no estava convicto mas apegava-se a uma teoria.
  -- O presente de um homem  narrado pelo seu passado -- disse. -- 
Isso  mais do que simples intuio.
  Guima levantou-se, decidido.
  -- Amanh, s mesmas horas, volto. Tchau.
  Leo foi para a cama mais esperanoso que nas noites anteriores. Mas 
no dormiu logo a pensar na lista do Guima, nos trs nomes que 
<57>
restaram e em ngela. A impossibilidade de v-la multiplicava seu 
sentimento por ela. Outro mal que o Baro lhe causara.

 O nome que restou na lista

  No dia seguinte, logo pela manh, Leo recebeu uma visita: dona 
Iolanda. Ela no estava nada tranqila. A polcia tornara a aparecer 
na casa dos Fantini, exigindo a presena de Leo na delegacia. Seus 
pais diziam que ignoravam seu paradeiro quando o nono entrou em cena, 
cheirando a vinho, e berrou aos policiais que seu neto no era ladro 
e que mesmo se soubesse onde ele estava, no revelaria. Houve um 
bate-boca entre os policiais e os Fantini que comeou na 
sala-de-visitas e foi at a porta da rua. Alguns vizinhos, que 
conheciam a famlia h vrias dcadas, boa gente do Bexiga, entraram 
na discusso atestando em altos brados a excelente conduta de Leo, no 
dizer deles um dos melhores rapazes do bairro. Os policiais, sempre a 
exigir a presena de Leo na delegacia, e sob uma chuva de argumentos 
e insultos, entraram numa RP e desapareceram.
  -- Por isso no  bom pr o nariz pra fora de casa -- implorou dona 
Iolanda.
  -- Fique sossegada, me. No saio at que tudo se esclarea.
  -- Voc tem comido bem?
  -- Acha que se come mal na casa de tia Zula?
  Com muitas lgrimas, dona Iolanda despediu-se de Gino e do filho, 
afirmando que fizera promessa ao Menino Jesus de Praga para que 
aquela complicao logo tivesse fim.
   tarde, enquanto jogava xadrez com Gino, Leo, j bem ntimo do 
primo, contou-lhe tudo sobre ngela. Gino ouviu com o maior interesse 
mas logo demonstrou que nesse terreno no sabia dar conselhos. Mesmo 
assim opinou:
  -- Pode ser mais fcil pr o Baro na cadeia do que convencer os 
pais dessa moa a aceitar o namoro.
<58>
  Leo riu, porm sentiu que aquilo era mais que uma pilhria e mudou 
de assunto.
   noite Guima apareceu. Gino j fizera o caf para receb-lo. Ele 
estava com boa cara, quase alegre.
  -- Falou com o Danilo? -- foi perguntando Leo.
  -- Assim que cheguei -- respondeu Guima. -- E depois do almoo j 
tinha a resposta escritinha num papel.
  -- Vamos l! -- disse Gino, inquieto.
  -- Maneco, o portugus,  de Santos, onde trabalhou oito anos num 
hotel, tambm na lavanderia. Luizo, o mulato, veio do Sul de Minas. 
Trabalhava em postos de gasolina. E Hans era lutador de jud e 
luta-livre. Essas marmeladas da televiso. A est o currculo dos 
trs.
  Gino voltou-se para Leo com um brilho nos olhos.
  -- Leo, voc tem idia do que usaram quando o puseram a nocaute?
  -- No tenho a menor idia.
  -- Teria sido um golpe a mo livre? Qualquer pedao de pau ou 
instrumento deixaria um galo na cabea, no  verdade? E, depois, o 
agressor no estaria  sua espera. Provavelmente foi surpreendido com 
voc na tal saleta.
  Leo e Guima concordavam a cada palavra que Gino dizia. O raciocnio 
do jogador de xadrez funcionara. O desmaio fora obra dum faixa preta. 
Quem sabe um profissional do jud ou de luta-livre.
  -- Acho que  o homem -- disse Leo em voz baixa.
  -- Hans Franz Mller.
  -- Gino, voc  fabuloso! -- exclamou Leo, abraando o primo.
  -- Obrigado! Hans  o parceiro ou assecla do Baro. E agora?
  Guima, que evidentemente no era jogador de xadrez, disse a 
primeira coisa que lhe surgiu  cabea:
  -- Vamos avisar a polcia.
  -- Mas que provas ns temos contra Hans? -- replicou Gino. -- Ter 
feito lutas de marmelada em circos e na televiso no  crime. Pode 
ser at que tenha um passado limpo. Avisar a polcia seria mover 
errado uma pea do tabuleiro.
<60>
  -- Ento vamos continuar com os braos cruzados? -- disse Leo, 
lastimoso.
  -- Acho que no h nenhuma coisa certa que se possa fazer -- 
admitiu Gino movimentando sua cadeira de rodas. -- A no ser dar 
outro xequezinho no Baro. No um xeque-mate, ainda, mas desses que 
assustam e desorientam.
  -- No sei jogar xadrez -- disse Guima -- e portanto no entendo 
essa linguagem.
  -- Acho que entendi, primo. Um xeque por tabela, ameaando outra 
pea como o cavalo, o bispo ou a torre. s vezes o adversrio entra 
em pnico e comea a fazer besteira.  o que acontece comigo quando 
jogo com voc, mestre. Basta ver uma pea em perigo para meter os ps 
pelas mos.
  -- Continuo no entendendo nada -- declarou Guima.
  -- Vamos apertar o Hans.
  -- Apertar, como? -- quis saber o porteiro, incrdulo.
  -- J tenho um plano.
  -- Vamos ouvir -- disse Gino.
  -- Mas esse plano vai me obrigar a sair daqui por algumas horas. E 
tia Zula e minha me no podem saber disso.
  -- Pelo amor de Deus, cuidado -- implorou Guima.
  -- Qual  o plano? -- perguntou Gino, excitado.
  -- Em primeiro lugar vou precisar duma lista telefnica.
  -- Para onde quer telefonar? -- quis saber Guima.
  -- Para nenhum lugar. Quero  um endereo. Vamos contra-atacar, 
primo.
<P>
 Os fabricantes de marmelada

  No tablado, King Kong tentava estrangular o Conde Drcula. King 
Kong era um macaco peludo, de quase dois metros de altura, e o Conde 
Drcula, embora no tivesse o mesmo porte, era uma ameaa constante 
com aqueles dois caninos que injetavam a 
<61>
maldio do vampirismo. Para evitar a inoculao, King Kong passou a 
usar a corda do ringue, optando pela morte por enforcamento.
  Outros lutadores, inclusive o Super-Homem e o Tarz, passeavam pela 
academia, indiferentes. O terrvel Fantomas, encostado a uma parede, 
bebia pelo gargalo uma garrafa de refrigerante. O nico que prestava 
ateno ao treino era o empresrio, Mister Sandman, antigo pseudnimo 
de um homem de brasileirssima fisionomia.
  O elegante Conde Drcula, com seu grave problema dentrio, em vo 
tentava morder o macaco que o estrangulava com as cordas. Mas o 
perigo mortal que ameaava os dois lutadores em nenhum momento 
chegava a interessar os ocasionais espectadores. Por fim, a um sinal 
de Mister Sandman, a luta teve fim.
  Vendo o empresrio livre, Leo aproximou-se:
  -- Mister Sandman! -- chamou.
  -- O que voc quer, ingresso grtis? Se for isso, desista. No 
damos mais ingressos nem para cegos.
  Leo registrou logo que no estava diante dum perfeito cavalheiro e 
portanto precisava ser hbil.
  -- Faz muito bem. Meu pai  pianista e no toca de graa nem em 
festinhas de Natal.
  -- Bem, o que voc quer, garoto?
  --  sobre o Hans. Hans Franz Mller. Estive numa academia e me 
disseram que j trabalhou para o senhor.
  -- O Alemo? J trabalhou. Fazia o Frankenstein, o Zombie e foi o 
melhor Drcula que j tive. S tinha um problema com ele, machucava 
demais os colegas. No tinha muito senso de humor.
  -- Onde Hans est agora?
  -- Ele largou a profisso dum momento para outro. At pagou multa 
contratual. Mas nunca disse no que se meteu.
  -- O senhor no o viu mais?
  -- Hans? Claro que sim. Est sempre aqui. Vem treinar, luta com os 
rapazes.  meio louco, mas boa praa. Sbado com certeza ele aparece 
mais ou menos no fim da tarde.
<62>
  -- No sei se poderei vir mas gostaria de deixar um recado.
  -- Eu no tenho boa cabea para recados -- disse o empresrio. -- 
L, naquela sala, tem uma moa. Deixe por escrito.
  Leo despediu-se, agradeceu e dirigiu-se  sala com suas paredes 
cobertas de retratos de lutadores. Uma moa fumava diante duma 
decrpita mquina de escrever.
  -- A senhorita conhece o Alemo, no?
  -- Conheo.
  -- Quero deixar um recado para ele. Anote, por favor.  importante. 
-- Esperou a moa pr um pedao de papel na mquina e ditou: Caro 
Hans: (Mas no tinha ainda idia alguma do que ditaria). A 
secretria esperava. O Conde Drcula, j sem os caninos, ia entrar na 
sala. Repetiu: Caro Hans, diga ao nosso amigo Baro que o rapaz do 
hotel est na pista. Ramon Vargas.
  Assim que a moa acabou de bater o recado  mquina, Leo saiu da 
academia, mas apesar do tom jocoso do ditado no conseguia rir. 
Imaginou a surpresa em duas caras, na de Hans e do Baro. O que eles 
fariam, diante da mensagem do cadver?
  Essa pergunta, ao voltar, Leo levou para Gino.
  -- O que eles vo fazer?
  O enxadrista pensou, pensou e respondeu:
  -- Vo rezar para que voc no caia nas mos da polcia. Algum 
delegado pode acreditar em sua histria e a seria o fim deles. Por 
isso tenha mais cuidado agora.
  -- Por que, primo?
  -- Eles podero tentar contra sua vida antes que a polcia lhe d 
crdito.
  Leo pensara em tudo menos em que sua vida pudesse correr perigo.
  -- No sou to importante assim para que me matem.
  -- Leo, a esta altura do campeonato, voc deixou de ser um simples 
peo para ser um bispo ou uma torre. Cuidado!

               oooooooooooo

Fim da Primeira Parte
